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Capitalismo de vigilância: quanto da nossa autonomia entregamos em troca de conveniência?

Uma reflexão sobre capitalismo de vigilância, economia da atenção, dados biométricos e o poder das grandes plataformas digitais de estruturar nossas escolhas.


Quando nossa atenção se torna matéria-prima

Ao ler A Era do Capitalismo de Vigilância, de Shoshana Zuboff, tenho pensado sobre como o capitalismo de vigilância ultrapassa a simples coleta de dados. O conceito descreve um modelo econômico no qual experiências humanas, comportamentos e interações são transformados em dados, analisados e utilizados para prever, influenciar e monetizar nossas ações.

Quando utilizamos redes sociais, plataformas digitais ou ferramentas de inteligência artificial, não estamos apenas consumindo um serviço. Nosso tempo, nossa atenção, nossos padrões de comportamento e, cada vez mais, nossos próprios dados biométricos passam a possuir valor econômico.

O tempo de tela vira matéria-prima.

Quanto mais permanecemos dentro de uma plataforma, mais informações produzimos sobre aquilo que desperta nossa atenção, nossas preferências, nossos hábitos, nossas relações e nossas reações.

A questão deixa de ser somente o que fazemos na internet e passa a ser também o que pode ser inferido sobre nós a partir desse comportamento.

Nós realmente escolhemos?

Isso me leva a uma questão que considero central: até que ponto nossas escolhas dentro desses ambientes são realmente livres?

É evidente que ainda possuímos agência. Podemos fechar um aplicativo, deixar de seguir alguém, ignorar uma recomendação ou abandonar uma determinada plataforma.

Porém, essas decisões não acontecem em um espaço neutro.

As próprias plataformas constroem aquilo que podemos chamar de uma arquitetura de escolha.

A posição de um botão, a ordem das publicações, as notificações, os sistemas de recomendação, o autoplay, as métricas de engajamento e diversas outras decisões de design são capazes de influenciar nosso comportamento.

Portanto, o problema não é afirmar que os indivíduos perderam completamente sua capacidade de escolha.

A questão é mais interessante:

continuamos escolhendo, mas escolhemos dentro de ambientes que foram deliberadamente projetados para influenciar aquilo que fazemos.

Existe uma tensão entre agência individual e estrutura.

Da atenção aos dados biométricos

Essa discussão se torna ainda mais relevante com a popularização da inteligência artificial generativa.

Recentemente, tendências nas redes sociais incentivaram pessoas a enviarem fotografias próprias para ferramentas de IA para descobrir, por exemplo, como seriam em determinada década, estilo artístico ou situação imaginária.

À primeira vista, parece apenas entretenimento.

Mas uma fotografia do rosto não é apenas uma fotografia.

Ela pode carregar características biométricas extremamente particulares de uma pessoa.

Isso cria uma pergunta que considero mais importante do que simplesmente discutir se determinada ferramenta é divertida ou conveniente:

qual é o valor econômico de conhecer cada vez mais profundamente quem somos?

Durante muitos anos, as plataformas aprenderam sobre nossos cliques, pesquisas e relações sociais.

Agora, existe a possibilidade de sistemas aprenderem também a partir da nossa voz, rosto, movimentos, localização e outras características extremamente íntimas.

Um possível “feudalismo digital”

Outra ideia que surge dessa reflexão é a comparação com aquilo que alguns autores chamam de feudalismo digital ou tecnofeudalismo.

A analogia não é perfeita, mas ajuda a pensar sobre concentração de poder.

Poucas empresas controlam partes fundamentais da infraestrutura digital contemporânea: sistemas operacionais, serviços de nuvem, redes sociais, mecanismos de busca, modelos de inteligência artificial, lojas de aplicativos e grandes conjuntos de dados.

Nós vivemos, trabalhamos, estudamos, compramos e nos relacionamos dentro desses territórios digitais.

Porém, não controlamos suas regras.

Uma plataforma pode modificar seus algoritmos, condições de uso ou formas de monetização praticamente de maneira unilateral.

Nesse sentido, produzimos continuamente valor dentro de infraestruturas que pertencem a terceiros.

E talvez exista algo particularmente curioso nesse modelo econômico.

A matéria-prima não é apenas aquilo que produzimos.

Somos também nós mesmos.

Nosso comportamento.

Nossa atenção.

Nossas relações.

Nossas preferências.

Nossos dados.

O problema não é apenas privacidade

Por isso, acredito que reduzir o debate sobre capitalismo de vigilância exclusivamente à privacidade é insuficiente.

A discussão também é sobre poder.

Quem controla a infraestrutura digital?

Quem possui os dados produzidos dentro dela?

Quem define quais informações aparecem diante de nós?

Quem constrói os sistemas que influenciam nossas decisões?

E quem possui capacidade de transformar nossos comportamentos em previsão, influência e lucro?

Talvez a questão mais importante não seja simplesmente se estamos sendo observados.

É entender que tipo de sociedade estamos construindo quando observar, prever e influenciar o comportamento humano se torna um dos modelos de negócio mais valiosos do mundo.

E, no fim, permanece uma pergunta:

quanto da nossa autonomia estamos dispostos a entregar em troca de conveniência?